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ABC e o pioneirismo nas rádio rock

por: Giovana Pessoa

E ai, você já ouviu falar da rádio rock 97FM??? Era uma rádio aqui de Santo André que, de acordo com alguns pesquisadores, teria sido a precursora das rádios especializadas em rock no Brasil. Seu auge foi nos anos 80 e acredita-se que ela tenha influenciado muitos jovens da época que começavam a se identificar com o estilo, principalmente o punk.

A rádio abria espaço para bandas autorais nacionais, mas o foco principal era justamente as bandas da região do ABC paulista, litoral e periferia de São Paulo. Bandas como Ira, Garotos Podres e Golpe de Estado marcaram presença na programação. Além de falar do estilo musical, a rádio também trabalhava com temas de relevância social e tinha como proposta fazer com que as pessoas soubessem o que estava acontecendo de fato na região, “abrir os olhos” da população, com um jornalismo crítico e independente – lembrando que a noção de bom jornalismo desta época era muito diferente da que temos hoje, já que o país tinha acabado de sair de um longo período de censura, estava passando por muitas mudanças sociais, econômicas e políticas, o que deixou muitas marcas no modo de pensar a notícia.

Em entrevista para o site ABC ROCK YOU, Máo, vocalista do Garotos Podres, faz questão de lembrar e contextualizar o momento histórico em que a banda se inseria, mesma época do surgimento da rádio:

http://www.youtube.com/watch?v=xyOdOm9q9Zc

O jornalista Ricardo Martins, mais conhecido como Rick’n’Roll, escreveu um artigo sobre a rádio para o jornal ABC Repórter:

Sintonia nas ondas do rádio

Mantendo o ritmo semanal desta coluna, hoje darei um mergulho nos anos 80, e farei referência à rádio que escreveu um capítulo glorioso na história do ABC,

97 FM

É bem provável que os ouvintes da Energia 97 FM, desconheçam as origens desta rádio que hoje é referência entre os apreciadores de dance music. Digo isso, por que antes da Energia 97 FM tornar-se sinônimo de música eletrônica, já existia outra rádio na mesma freqüência, mas como uma programação totalmente alternativa.

Quando a rádio surgiu em 1983, a censura até então implacável começava a perder força e nesse cenário pós-ditadura surge em Santo André a rádio que seria motivo de orgulho aos moradores da região.

Vale lembrar que até esse momento não existia a MTV, muito menos a 89 FM, e nesse mosaico sonoro em que o rock brasileiro começava a atingir a maturidade, a 97 já se destacava das demais rádios por apresentar um perfil que resistia a banalidade artística, se tornando exemplo de vanguarda entre as emissoras.

Além de entrevistas com grupos emergentes, como: Garotos Podres, 365, Gueto, Mercenárias e Detrito Federal, durante quase 10 anos a 97 FM apresentou programas de grande audiência, como: Backstage, Sessão Rockambole, Reinação, Sinergia e o programa Surf Report produzido por Paulo Lima que em 1986 migraria para a 89 FM criando o Programa Trip 89 e posteriormente a Revista Trip.

Nesse período, o Clube Aramaçan em Santo André se tornou a extensão da 97 e através da produtora Rockstrote vários grupos nacionais se apresentaram nas festas promovidas pela rádio, entre eles, Ira, Titãs e Golpe de estado, sem contar com a presença de grandes grupos internacionais, como: Deep Purple, Ramones e Faith no More.

E a 97 FM cresceu, cresceu tanto que em 1992 mudou-se para a capital e a necessidade de gerar lucros foi tão imediata, que do dia para a noite os diretores alteraram radicalmente sua programação, abandonando suas raízes musicais, abraçando as tendências descartáveis da música pop e da indústria cultural, que há exemplo de muitas instituições, se deixou consumar por ideologias capitais, que erguem e destroem coisas belas.

Paulo Lima, criador da revista Trip que iniciou sua carreira com o programa Surf Report na 97FM, que depois passou para a 89FM com o nome Trip, comenta sobre a experiência vivida na rádio e a evolução da carreira em entrevista para a Rádio Agência em 2008.

O programa de rádio veio antes da revista? Conte isso pra gente.
Essa história é do cacete, adoro poder contar. Um dos meus primeiros clientes da Visual Esportivo foi o hoje o conhecido Turco Loco. O Turco nessa época tinha um negócio maluco de vender camiseta e inventou uma marca chama Ocean Mediterranean. Ele não inventou só a marca como inventou o oceano (risos). Ele me procurou para anunciar essa marca, sugeri que ele mudasse o nome e acabamos ficando amigos. Num belo dia ele virou e disse: “tem um amigo meu que montou uma rádio. Por quê você não faz um programa lá? Posso trazer ele aqui?” Eu respondi que podia. Até menti dizendo que tinha um projeto de programa. Mas o projeto era nada mais do que vontade de fazer, não tinha projeto nenhum. E ele apareceu no dia seguinte com o José Antônio Constantino, o dono da 97 FM, um cara super boa gente. Ele estava começando a fazer a rádio dele, estava em fase experimental ainda, não podia ter anúncio e tal. Eu não sei se ele acreditou no Turco Loco, se ele acreditou em mim ou então ele não tinha o que colocar na rádio [risos]. Sei que ele bateu um papo comigo de meia hora, viu a revista e falou que se quisesse poderia começar no dia seguinte. Falei que não dava, “me dá duas semanas, pra eu montar o projeto”. Aí o cara foi embora e pensei: “putz, agora preciso fazer um programa”. Então chamei o DJ Feio, que hoje comanda a Rave Experience, uma das mais tradicionais que tem aqui no Brasil. Era o amigo mais próximo que eu sabia que gostava muito de música, que ouvia músicas que eu achava legais, ficava comprando discos, pesquisando. Chamei o Feio e falei pra ele arrumar umas músicas e fazer um programa de rádio. Sentei em casa, numa mesa de jantar, morava ainda com meus pais ainda. Escrevi um monte de noticias que eu sabia que estavam acontecendo e circulando na revista. E fui pra 97 FM no dia combinado. Na época, ficava na avenida Gida, 45, segundo andar. Era um predião lá em Santo André. Tinha uma pizzaria lá em baixo, um lugar muito engraçado, mas ainda não estava pronto. Não tinha estúdio, não tinha nada, nem piso. Era um andar sendo feito. Perguntei “a rádio é aqui?”. E era. Você conhece o Pazinha, Enio?

Sim, o operador de áudio.
Então, todo mundo conhece o Pazinha. As pessoas de rádio, esse povo de rádio é muito legal, porque todo mundo adora o que faz. Os caras trabalham porque amam. O Pazinha estava lá e era um moleque na época. Me apresentaram para ele e eu perguntei “cadê a rádio?” Ele respondeu: “é aqui”. Sabe dessas carteiras de colégio que tem um braço de madeira? Tinha uma dessas com um microfone com um pedestalzinho e uma mesinha numa outra carteira de colégio, uma de frente pra outra, numa sala vazia com o piso de cimento. Falei: “putz, mas é isso?” Aí o Pazinha pegou uma caixa de geladeira de papelão, que eles tinham dobrado, ficou parecendo uma capelinha e colocou em cima da minha cadeira. Falou “entra aí que vai dar certo” (risos). Essa foi a gravação do primeiro programa. Na época ainda existia a revista, se chamava Visual Esportivo Surf Report.

Esse era o nome?
Era. Um programa de notícias do mundo e comportamento jovem, digamos assim, com foco nesses quatro esportes, chamados body sports, esportes radicais. Mas já tinha música, obviamente, e logo comecei a entrevistar pessoas, gente da música. Dois anos depois de ter estreado o programa na 97 FM, saímos da Visual. Fizemos o programa da Trip FM e fundamos a Trip. O programa foi tomando a forma da Trip.

Quando você começou a fazer o programa, com a caixa de geladeira e tudo mais, você sentia o retorno, a força do rádio?
Muito, porque era uma época que não existiam 330 rádios jovens, por exemplo. Quando a 97 nasceu começou o maior buchicho. “Putz, tem uma rádio de rock”. Era “97 Rock”. Uma rádio rock, total. Tinha programa de heavy metal, programa do Kid Vinil, e eu acho que foi a primeira, porque não existia a 89. Era uma carência tão grande desse tipo de conteúdo que, pô, começou a bater os tambores na cidade. Uma época em que qualquer coisa diferente muito rapidamente era sabida, tinha uma baita repercussão. Até hoje encontro gente que diz “meu, eu parava lá perto de Santo André para sintonizar indo pra praia”. Porque eu dava o boletim das ondas, sexta à noite, no mesmo horário que é hoje.

O Boletim das Ondas era uma coisa que vocês inventaram, não? Não existia em rádio alguma por aqui.
Eu acho que existia lá fora, chamava-se surf report, não fui eu quem inventei. Mas aqui não tinha.

Quando alguém fala dos primórdios do Trip FM o que se lembra com mais facilidade é o tal Boletim das Ondas.
Porque era uma época que o Boletim rodava em outros horários dentro da rádio. Entrevistei muito músico em começo de carreira. Os Paralamas do Sucesso, muita gente. Caras que estavam começando na época que iam lá pedir pra falar, pra ter um espaço, né?

Você tem esses áudios, Paulo?
Tenho.

Você os usa no programa atual?
Graças ao nosso querido Alexandre. Mas muito pouco. A real é que você entra no site e escuta alguma coisinha. Mas eu tenho aqui um arquivo razoável.

Já digitalizou?
Ainda não. Vamos começar agora. Desde essa época a gente tinha a preocupação de registrar. Por exemplo, sabe os Garotos Podres? No primeiro disco deles tem um agradecimento ao nosso programa. Foi o primeiro lugar que eles tocaram. E vários outros artistas, eu nem lembro. É muito louco porque às vezes cruzo com o cara e ele lembra de quando foi entrevistado por mim. Fiz as contas, são mais ou menos 1500 entrevistas em 2000 semanas de programas. Aconteceu um negócio interessante quando fui para Tóquio há uns cinco, seis anos. Cheguei lá virado, aquela confusão mental do primeiro dia, toca o telefone do hotel onde eu estava sozinho.Ninguém sabia que eu estava lá. Atendi. “aqui é o fulano de tal, moro aqui. Soube que você chegou e eu quero retribuir uma coisa que você fez por mim”. Que papo estranho, pensei. “Em minocentos e não sei quanto eu tinha um negócio de tatuagem em Santo André. Liguei e você sorteou umas tatuagens minhas, graças a isso meu estúdio bombou e hoje eu estou aqui em Tóquio. Queria te pagar um jantar”. O cara foi me buscar num carrão, me levou pra jantar, uma noite muito interessante, cada lugar! E eu nem sabia que ele existia! Tinha um puta retorno na 97. E quando eu fui pra 89 estourou. A 97 que era uma rádio muito legal mas a 89 veio com uma proposta na época muito forte.

Foi na época do [Luiz Fernando] Maglioca, da implantação da 89?
Entrei na época do Eduardo Andrews. Fiquei tanto tempo lá, cara, que se você somar os dois períodos dão uns 15 anos. Eu vi todo mundo que você possa imaginar ser diretor daquela rádio, e eu fui durando (risos). Eles mandavam gente embora mas o meu programa ficava. Talvez pela habilidade de lidar com as pessoas.

Você é independente, levava patrocínio, não?
Levava. Nunca dependi. Senão não rola. Talvez seja uma razão para que eu durasse lá dentro. A gente tinha estrutura de revista, conseguia ir atrás de patrocínio, pôr dinheiro na rádio. Mas eu sofri muito na mão desses caras. A 89 foi arrendada para o Jornal do Brasil e, nessa época, tinha gente que não estava interessada em relacionamentos humanos e profissionais, sabe? E a gente era moleque. Um grupinho ali começando, a gente sofria muito. Recebíamos ameaças de tirar do ar, não sei o que mais. Mas peguei o período áureo da 89 FM, não existia MTV, nada disso. A 89 era da comunidade jovem, ligada ao rock, esportes. Era onde ela se encontrava. Fizemos coisas memoráveis lá, mas as que são mais marcantes, que inclusive está no site, são algumas vinhetas que a gente fazia. Não sei se você se lembra do filho da empregada.

Lembro sim. Como ela foi criada?
A história do filho da empregada começou justamente porque eu ia na sala do diretor do sistema JB em São Paulo e ele me deixava esperando horas, me tratava mal, me pedia mais dinheiro. Uma relação péssima. Um belo dia eu estava conversando com um pessoal da revista e falei: “pô, sou tratado que nem o filho da empregada. O último que ganha presente, ninguém lembra dele no natal, tem que trabalhar, e tal. Quer saber: vamos fazer um negócio e assumir isso. Nós inventamos o filho da empregada como uma entidade. Chamava-se Robson. A gente viu que essa coisa engraçada e todo mundo adorava e criamos uma série. Durante anos fizemos chamadas nonsenses. Hoje você vê essas vinhetas da MTV, falam do promo da MTV. Mas era isso que fazíamos no rádio. Fez tanto sucesso que chegou a ser feito na TV, num programa da TV Cultura: dramatização aquela historinha. Se não me engano foi num programa chamado Vitória. Meu programa na 89 foi o primeiro espaço que Os Sobrinhos do Ataíde tiveram em uma rádio comercial. Vieram da Rádio USP, estudavam lá.

Como é que foi?
Ouvi numa festa uma galera ouvindo uma fita e eu perguntei quem tinha feito. O Marco [Bianchi] estava lá, troquei uma idéia com ele e ofereci o espaço no Trip FM onde, inclusive, eles me satirizavam. Tinha o boletim das ondas que eles faziam e diziam “o mar está molhado esse fim de semana”. Faziam uma vozinha totalmente em cima do meu jeito de falar, eu mesmo achava do cacete. Enfim, a gente se divertiu pra cacete na 89 e acho que lançamos muito estilo de música, muito artista. Não só desses brasileiros, mas bandas lá de fora.

Vocês nunca tiveram conversas com gravadora? Nunca saiu um CD do Trip FM?
Nunca. Sairam vários CDs que a gente fez na revista. O programa tem toda essa história, ligada ao humor, diversão, conteúdo, um jornalismo contemporâneo diferente e ao próprio lançamento da informação musical.

Teu antigo slogan no programa era “qualidade independente da idade”. Eu ouvi você dizer uma vez, que seus leitores/ouvintes faziam parte de uma tribo muito particular que você chamava de “forever young”. Esse público continua com vocês?
Total. Eu falei isso, é? Essa frase vou até recuperar, porque na verdade, até a próxima edição da Trip é sobre envelhecimento.

Era sobre a coisa do cara que tinha 45, 50 anos se comportar como um cara de 19 e vice versa.
É o seguinte. Um dos pilares aqui da Trip é tudo o que a gente não faz é agrupar gente pela idade. Desculpa perguntar, mas quantos anos você tem?

46.
Minha idade. Você não fica amigo das pessoas porque elas tem 46. Você fica amigo das pessoas que pensam parecido com você. Que tenham os valores semelhantes, não é isso?

Exatamente.
Então você pode ter um amigo de 17 anos e outro de 80. Toda vez que a gente tentou agrupar gente, mesmo por classe social, não dá certo. Dá certo juntar gente pelo jeito de ver o mundo, pela hieraquia de valores. É assim nos clubes, nas boates, numa empresa. Pelo menos deveria ser nas empresas. Então, sempre pautamos trabalho do rádio e da revista, por tipo de cabeça. Eu nunca quis fazer rádio pra todo mundo. Quis fazer rádio pra um tipo de gente que achava que tinha a ver comigo. Sobre esse negócio de forever young: tem uma rádio de classic rock, não sei se existe ainda, na Califórnia, chamada KLSX Los Angeles, eles falavam assim “It doesn’t have to be old to be classic” [não precisa ser velho para ser clássico]. Eu traduzi isso e pensei “pô, e também não precisa ser novo para ser moderno”. Mas o que interessa não é o slogan nem a frase. É o sentido de que para mim não interessa o fato de ter 23 anos. Nem eu acho ruim uma pessoa pelo fato dela ter 80. Vou querer saber o que essa pessoa pensa, o que ela acha. Há gente maravilhosa em todas as idades e são essas que a gente está atrás. No rádio isso fica muito claro. Por exemplo, quem ouve a Eldorado? Eu acho que não se consegue definir o público da Eldorado pela idade. Eu tenho muito mais dificuldade de definir o público da Eldorado pela idade do que pelo jeitão. Pelo jeitão eu consigo te dizer. Eu conheço uma molecada que ouve a Eldorado aqui da revista. E tem gente mais velha que ouve a Eldorado. Você vai ver, a cabeça deles é semelhante. É só isso que eu vejo dar certo em termos de segmentação. Então isso que eu falei do forever young, tá valendo.

E a rede de rádios, funciona bem? Sei que rede no Brasil é complicado, não é uma coisa muito fácil. No sul você está forte com o pessoal da RBS. Mas vendo o mapa de onde o Trip FM é veiculado no país há essa situação peculiar com a Rede Oi: no Rio de Janeiro você não os acompanha como em outros estados, lá o Trip FM é veiculado na Paradiso FM. Fale sobre isso.
Olha, isso é novidade. Porque essas redes aí são novidades, né? A coisa é nova. Queríamos ter uma rede há muitos anos. Cheguei a fazer junto com o pessoal do estúdio Tésis, o programa durante anos foi gravado lá. Eles eram pequenos e gravávamos lá. Montei com eles uma rede via sedex e fita K7. Chegamos a estruturar toda a idéia. Depois pensei “isso daí vai ser uma trabalheira maluca e não será viável”. Quando a tecnologia começou a permitir, rapidamente a gente começou a tentar abrir espaços em outras rádios. Aí o Felipe Xavier montou uma empresa para fazer isso: vender, divulgar e espalhar o programa deles e fazer isso para outros. Eles nos ajudaram a expandir o programa através da estrutura deles. Com o tempo, foram surgindo essas redes todas. A idéia inicial era escolher a rádio parceira em cada ponto estratégico pra nós. E foi assim.

Categorias:Memória
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